7/12/2009
Introdução à loucura pt I
É dezembro e estou de cama. Só levanto para ir ao banheiro e ir comer. Prefiro que tragam a comida até a cama. A mente anda fraca demais pra aguentar os caprichos físicos, por isso poupo-me cada vez mais. Já não sorrio. Já não canto, já não danço. Preciso encontrar Maristela. Pensei em mandar alguém avisá-la de meu estado mas, quando ela viesse (sei que viria), iria parecer que tinha vindo por obrigação.
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Já faz dias e Maristela ainda não veio. Temo que eu passe antes que por aqui passe ela.
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Não consigo mais lembrar do rosto da minha amada Maristela. Minha única filha, Ana, veio me visitar hoje. Trouxe almoço e frutas. Sentou ao lado da cama mas não conversamos. Sinto como se não tivéssemos nada em comum: seu sangue era doce e o meu já tinha gosto amargo.
Tentei me lembrar da minha juventude. Maristela foi a única coisa que me veio à cabeça. Eu não a via há tanto tempo...
Procurei por seu nome na lista telefônica mas não tinha. Última vez que nos vimos eu acabei por magoá-la. Quando Ana chegou por perto, ignorei Maristela. Eu não queria que soubesse da minha mais antiga - e pode-se dizer única - paixão.
Um pensamento me pegou desprevinido: e se Maristela não existisse? E se - num delírio quase que orgástico - ela fosse invenção da minha cabeça? Não pode ser! Claro que não, que idiotice... Mas pra ter certeza de que aquela ideia não era verdadeira, chequei os presentes que Maristela tinha me dado e eu ainda guardava muito bem e bem escondidos. O primeiro que vi: o chapéu que ela comprou numa viagem à Frankfurt. Lembro que só usei ele quando eu mesmo fui à Frankfurt.
Depois achei as cartas. Que beleza! Eu já sabia elas de cor. Eu conhecia Maristela como se ela fosse um pedaço de mim.
Ela, de fato, existiu.
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Estou à espera de alguém. Ninguém me visita... Nem que não seja Maristela... Sinto necessidade de algum ser, qualquer que seja. A única pessoa que vejo é a ajudante da casa. Não gosto dela. Ela não gosta de mim. Não pago bem e dou muito trabalho.
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Não tinha o que fazer. Todos os dias eram eternos domingos. Tenho tempo de sobra e planos de menos. Os livros já me cansam, as músicas me doem o ouvido. Fiz um poema:
Por aqui só o vento passa
e as nuvens arrasta.
Se aqui não passa ela,
onde passa Maristela?
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Não aguento.
25/10/2013
home session: coisas antigas 8 (as preferidas, de longe)
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