Chega uma hora que a gente analisa a nossa vida: como foi, como está indo e pra onde a gente quer que ela vá. E dói. Dói olhar a nossa vida pedacinho por pedacinho, examinando bem de perto pra ver se tem alguma lesão, algum ruído ou algum som que não devia existir.
E eventualmente, quando a gente procura bem, a gente até acha. Procurei por lesões por toda a pele da minha experiência e achei algumas. O que receitar? Qual conduta tomar quando a gente vê que deixou de fazer e falar algumas coisas importantes? Não achei em livro, artigo tampouco.
Fui vivendo engolindo sapos - sempre a mesma queixa! - e continuo assim. Preciso, eu mesma, seguir as orientações que dou pros outros, pois a voz de quem fala não é a mesma de quem não diz.
Parti pra ausculta de todo o aparelho respiratório. Tinha sibilo e estertor por tudo quanto é lado. Estertor fino, estertor grosso. Onde já se viu deixar de chorar por falta de tempo, menina? Onde já se viu chorar sem vontade? Onde já se viu deixar de amar porque tem aula às 13:30 e já são 13:25? Fica na cama, fica no café. A aula pode esperar, até porque você nunca faltou. Mas tem faltado em alguns compromissos mais importantes da sua vida. Você tem deixado de ver filmes pra estudar. Tem deixado de ligar pro Vítor, aquele amigo que você era tão próxima. Tem deixado de sentar no chão e pintar um quadro novo pra sua sala de estar. Tanto ruído e tão pouco diagnóstico por tanto tempo, mas que loucura!
Vou escrever aqui no receituário o que eu quero que você faça. Hoje não vai ter remédio não. O tratamento vai ser diferente. Quero que você abra mão da vontade de estar certa. E de ser sensata. Você foi sensata por tempo demais. E daí se você tem prova de alemão às 18:30? E daí se você ainda não resolveu onde vai passar as férias? Vai pra cama e fica lá até doer as ancas. Depois levanta e vai fazer seu projeto de Iniciação Científica. Vai tomar um sorvete no meio da manhã de uma terça. Depois senta e estuda pra discussão de caso de quinta. Mas por favor, te imploro, aqui e agora, pra que você deixe logo de ser tão preocupada. As coisas vão vir de qualquer jeito. Busca. Busca mas espera vir também. Sua leveza é melhor que sua sensatez, Mari.
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