Ali estava sentada Mariana. Com seus 22 anos, estava sentada, de olhos bem fechados pra tentar ver alguma coisa. Mariana queria respostas pras perguntas que nem tinha formulado, e elas vieram. Mariana não tinha sido uma mulher só. Tinha sido muitas. E foi apresentada, ali, naquela situação, à mãe Sebastiana e à Laila. Mãe Sebastiana e Laila tinham sido fortes e ainda viviam dentro de Mariana.
Aí sim Mariana abriu os olhos: não podia ser verdade. Mas fechou logo pra não ser mal educada e perder toda a apresentação. Não existia medo, pois mãe Sebastiana tinha pegado Mariana no colo e dado seu peito pra menina. Mariana mamava e medo não existia mais.
Sebastiana tinha começado sua vida como escrava e terminado como senhora de seu senhor. Nunca tinha tido o prazer da alforria mas sempre tivera o poder sobre todas as coisas. Quem se importa com a liberdade quando se pode ter tudo? Mãe Sebastiana não questionava nada.
Por outro lado, o que mãe Sebastiana tinha de inteligência, Laila tinha de esperteza. Laila não tinha tido um destino muito diferente de Sebastiana: era também escrava. Ela e sua família tornaram-se escravos de um povo.
Mas Laila tinha olhos. Os olhos de Laila convenciam uma multidão sem precisar dizer uma palavra.
E era isso. Tudo se escureceu. Mariana começou a se preocupar, então. Como lidar com o fato de que tinha sido essas duas mulheres e que elas estavam dentro dela? Como lidar com o fato de que Mariana não era nem inteligente nem esperta?
Mariana tinha suas cicatrizes e suas dores. Nas costas e no coração. E o que fazer? Mariana era só um saco de carne que carregava alguns sonhos e muita saudade. Só sabia chorar e sorrir, lembrar e sentir falta.
Dever insustentável era esse de continuar com as grandes façanhas de duas mulheres tão importantes. Será que Mariana falharia miseravelmente? O que Mariana tem a oferecer?
Então mãe Sebastiana veio novamente acalmar a menina. Aí Mariana percebeu: mãe Sebastiana é inteligente, Laila é esperta e Mariana fala. E foi nesse instante que ela começou a conciliar o poder da palavra e o coração.
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