Pois é, Cristina. Faz um bom tempo que eu não venho aqui, mas eu tive que vir. E muito bom saber que você tinha horário pra mim. Eu não tenho pensado. Acho que eu coloquei minha vida num carrinho de supermercado e fui empurrando enquanto olho as prateleiras. Mas acabei nem notando como tá dentro do carrinho. Acho que se eu for falando eu vou pensando e é isso que eu preciso agora.
Se você me perguntar sinceramente como eu to eu vou te dizer que não muito bem. Assim, bem eu até to, mas eu não to tipo muito bem. Mas também não sei se eu tenho que estar muito bem. É meio ditatorial essa sociedade da felicidade né? Eu preciso tar muito bem sempre? É, sei lá.
Mas tá, eu não to bem não. A maior parte dos dias eu to bem na merda. Isso começou num insight que tive. Foi aí que eu percebi que minha vida é uma mentira e que eu ia ter que viver com isso.
Se eu chegar nos meus 80 anos eu vou ter que me entender comigo que eu não fiz o que eu podia: eu fui pouco, eu tive medo.
É que aceitar as coisas e ir vivendo pouco é tão simples, Cristina. Não tava acostumada com isso mas é bem fácil. É bem cômodo também. Tirando nos dias que você percebe que sua vida é uma mentira. Esses dias não são tão bons assim, dá uma coisa bem ruim.
Mas eu tenho alguém pra ficar comigo quando eu preciso, sabe? É bem bosta ter que viver sendo traída, mas quando eu preciso ele tá ali. Meio grosso, meio manipulador, mas tá ali. E dá uma preguiça largar tudo isso.
Não é nem que tenha muitos papéis pra resolver (até porque não tem). Mas tem que devolver umas coisas, tem que explicar pras pessoas que acabou e tem até que sofrer. E é melhor sofrer parcelado que fica parcelinhas menores do que pagar de uma vez né?
Então, Cristina, eu acho que é mais isso, por onde cê acha que a gente devia começar?
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