Eu tenho essas ideias estranhas e mágicas (eu sou a rainha das ideias estranhas e mágicas) e uma delas é que quando eu estou em uma época da minha vida que eu não consigo ver, eu me recebo. E é mais ou menos assim: acontece quando eu to naquelas épocas difíceis, mas difíceis mesmo, em que tudo é preto e abrir os olhos o máximo que conseguir não resolve nada. É tudo preto e você tem os braços estendidos na frente pra não dar com a cara na parede.
Acontece que eu me sento no banheiro (mesmo sem ver nada) e aí recebo duas pessoas: eu do futuro e eu do passado.
A eu do passado consegue me lembrar de onde eu vim e por tudo que eu passei (o que me dá força pra aturar suas loucuras ou a loucura de alguma outra pessoa). E a eu do futuro me conta mais ou menos os motivos pra eu aguentar firme.
A eu do futuro me conta mais ou menos o que vai acontecer comigo - sem dar spoilers, claro (como poderia?).
E, por essas e outras, eu me sinto muitíssimo obrigada a elaborar discursos intensos comigo mesma para que a minha pessoa do futuro receba essas minhas mensagens antigas e que a minha pessoa do passado receba todas essas informações loucas.
Aí me deparei hoje com essa coisa difícil por demais: o que eu vou dizer pra Mariana de 15-18 anos? Sério. O que que eu vou dizer?
Fiquei pensando que talvez tenha sido por isso que quando eu me sentava no chão do banheiro as coisas continuavam pretas sem tendência a ver uma luz e me permitir abaixar os braços. Acho que eu não consigo arrumar um discurso bom pra essa Mariana.
Mesmo agora, sabendo de tudo, tendo vivido todos esses infortúnios, não sei se eu falo alguma coisa ou não.
O que que eu poderia falar? Aguenta firme que essa dor que você tá sentindo vai doer em vão? Ou aguenta firme que essa facada no seu peito vai te ensinar a lidar com as outras coisas?
Mari, eu sei que tá doendo. E vai doer ainda por mais um tempo. E você vai achar que as coisas nunca mais vão melhorar. Você vai chegar no fundo do poço e vai cavar mais fundo - e sangue vai escorrer das suas unhas de tanta força que você vai fazer. (O sangue não sai só do teu braço). Mas Mari, se tem uma coisa que eu sei, e que posso te falar agora, é que você vai melhorar. A ferida vai fechar e só vai sangrar alguns dias no ano. E você vai se tornar uma pessoa melhor. Tudo isso que você passou vai te proteger por muito tempo, porque nada vai doer tanto quanto isso. E isso também pode não te ser muito bom, porque as lágrimas não vão vir com muita facilidade (e chorar às vezes alivia). Aguenta firme. Pessoa nenhuma merece toda essa devoção e eu sei que você não acredita. Eu não espero que você realmente acredite em mim, mas é meu dever te contar tudo isso. Você vai ver que na verdade você não está protegendo outra pessoa que não você. Essa história de "pra sempre" só vai te dar dor de cabeça, cê já sabia disso e mesmo assim ficou de mimimi falando bosta enquanto devia ficar calada. Você se condenou, Mari. Mas vou te falar uma coisa: um dia você vai se ver livre e a liberdade vai te ser um pão francês no café da manhã, seja lá o que isso signifique. Mari, eu te amo e eu to aqui por você. Agora levanta desse chão do banheiro, limpa o resto de sangue no braço e joga essas coisas fora. Seu corpo é bonito e seu coração é grande demais. Nunca duvide disso. As coisas vão melhorar e você vai ficar bem (espero que um dia fique resolvida também).
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